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  Uma introdução à Arte Postal  
 

Década de 60. Um mundo cujas fronteiras estão divididas entre o capitalismo e o socialismo. Em vários países as ditaduras controlam a expressão de ideais. Dividido pela Guerra Fria e pela angústia de não poder se expressar, observa-se as produções artísticas refletindo aspectos e gerando condições para o surgimento de uma série de movimentos, em meados do século XX, como forma de politização da arte – pensamento previamente utilizado por Walter Benjamin (1987), no qual a arte está intrinsecamente ligada à política. Um exemplo é a Arte Conceitual que prega a valorização das idéias e conceitos mais do que a própria obra de arte como objeto. Assim, baseado em valores da Arte Conceitual, surge o que é considerado a primeira grande forma de arte em rede, uma rede anterior ao advento das redes telemáticas: os eventos de Arte Postal.

Apesar de experiências anteriores e pontuais ocorridas nas produções de Pablo Picasso, Henri Matisse, Marcel Duchamp, Francis Picabia, entre outros, considera-se o ano de 1962 como sendo o marco do surgimento da Arte Postal (Mail Art). A partir da criação da “New York Correspondance School of Art”, pelo artista americano Ray Johnson, tem-se o emprego formalizado do correio como um veículo que serve como meio de expressão e integração cultural entre artistas das mais diversas partes do globo. O movimento está diretamente ligado às vanguardas instauradas ao longo do século XX, que começaram a lidar com a questão da transição da técnica como extensão do corpo do artista para as tecnologias que transformam configurações do imaginário e elaboram novos modos de comportamento.

Afinal, artistas futuristas e dadaístas foram os primeiros a usar cartões-postais de forma artística. Marcel Duchamp já trocava correspondências com finalidades estéticas, além de acreditar que qualquer um poderia intervir em uma criação – o que se assemelha, em muito, à lógica da Arte Postal sobre a possibilidade de intervenção em uma obra por várias pessoas. Por outro lado, Kurt Schwitters, criador da corrente artística intitulada Merz, introduziu a idéia de não-comercialização de suas obras, referência utilizada até hoje por muitos artistas. Para os surrealistas a colaboração, coletivismo e intercâmbio são palavras-chave no modo de pensar e de fazer arte e, já na década de 50, os artistas utilizavam carimbos e selos em seus trabalhos.

“A radical mudança de ênfase de Duchamp, de objeto para conceito, permitiu a introdução de vários métodos em um empreendimento artístico redefinido. Sua importância para o presente estudo baseia-se não apenas no que ele fez, mas no que permitiu ou iniciou na arte. O tipo de pensamento que encorajou fez com que investigações em diversos meios de expressão e formas artísticas parecessem muito naturais, quase previsíveis. Principalmente para aqueles que achavam o “negócio” de arte tão desagradável, a abordagem liberal de Duchamp em relação aos materiais e às formas separou o objeto do interesse comercial, ao menos inicialmente, porque era a idéia o que importava, e ainda não estava claro como vender ma idéia.” (Rush: 2006 p.15).

Todos estes elementos, nos anos 60 e 70, vão produzir trabalhos onde as criações não privilegiam mais as obras como mercadoria, mas como um produto de comunicação onde se destacam os elementos da interatividade, da produção coletiva que gera a possibilidade de co-autoria, da obra em constante modificação, portanto, em processo, diante de redes que privilegiam o intercâmbio político e cultural. Produções que refletem o descontentamento da arte com a política das principais galerias de arte, principalmente, no caso de países regidos por governos ditatóriais, como o Brasil. Esse fluxo de informação entre artistas se torna uma estratégia de liberdade e de ativismo político, e, desta forma, os artistas encontram nos postais uma maneira rápida e simples de difundir seus trabalhos. Em 1963, foi criado o conceito de Eternal Network, rede que lida com listas de endereços dos participantes, sendo que qualquer um pode sair ou entrar a qualquer momento que desejar, mantendo o fluxo e movimento dos circuitos artísticos.

Atualmente, estamos acostumados à grande quantidade de redes artísticas presentes virtualmente na Internet, onde todos podem interagir em tempo real e acrescentar visões a uma mesma obra, quase que instantaneamente. Os meios de comunicação quebram as barreiras físicas, espaciais e tecnologias e as representações disseminam-se através da virtualidade dos suportes eletrônicos, possibilitando a existência de uma espécie de aldeia global. Ainda incipiente enquanto forma artística, a rede construída pela Arte Postal transforma o modo de fazer artístico, quebra barreiras e paradigmas, no entanto, pouco se fala desta nova forma de disseminação da informação. É uma arte revolucionária na sua essência que utiliza os suportes físicos para produzir seus significados. É precursora de um princípio inovador: a interação. É nesse sentido que podemos dizer que a Arte Postal já trabalhava com os conceitos de difusão, criação compartilhada, interatividade, intercâmbio e produção em processo.

     
 
Arte Postal e suas Poéticas. Unicamp 2007.