O Segredo de Seus Olhos

Cartaz do Filme

Na superfície, “O Segredo dos Seus Olhos” (El Secreto de Sus Ojos, Argentina, 2009) funciona como um thriller criminal em que, no espaço de 25 anos, um oficial de justiça investiga o paradeiro de um homem (Javier Godino) acusado de matar e estuprar uma mulher. Espectadores interessados em entretenimento ligeiro podem lê-lo desta maneira, e terão visto um bom filme. Mas a obra de Juan José Campanella, como os melhores melodramas, esconde outras possibilidades de leitura. “O Segredo dos Seus Olhos” é, também, uma bela história de amor. Também é um thriller político, na medida em que comenta, com sutileza e mordacidade, a violência da ditadura militar argentina nos anos 1970.

Junte tudo isso e você tem um filme raro, que reúne destreza narrativa e personagens sólidos, perícias técnicas impressionantes que servem à história e nunca soam como mero exibicionismo, atores impecáveis, humor e dor em doses iguais. Dá até para entender porque o longa-metragem de Campanella destronou o favorito e sensacional “A Fita Branca” (Michael Haneke) na cerimônia de premiação do Oscar 2010, dando à Argentina sua segunda estatueta. É simples: “O Segredo dos Seus Olhos” é irresistível. Tanto que, além do sucesso de crítica, também acumulou a mais alta bilheteria da história do cinema portenho e levou mais de três milhões de argentinos às salas de projeção, maior número para uma produção local desde 1983.

Aliás, quem conhece a parceria estabelecida desde 1999 entre o diretor (atualmente radicado em Los Angeles, EUA, onde dirige regularmente episódios de séries como “House” e “Law & Order”) e o ator Ricardo Darín já sabe que os dois não se juntam para fazer qualquer coisa. Apesar de parte da crítica cinematográfica – sobretudo brasileira – torcer o nariz para o cinema de Campanella, é fato inegável que ele domina como poucos diretores latino-americanos a arte do melodrama popular. Seus filmes sempre cruzam as fronteiras do riso e do choro naturalmente, como se fosse fácil, e padecem de uma aparente simplicidade que muitas vezes esconde a clareza narrativa, o faro para bons diálogos e a colocação certeira de câmera.

Cena do filme

Através de suaves e bem tramadas idas e vindas na cronologia (mais ou menos na linha do que Sergio Leone fez em “Era uma Vez na América”), Campanella conta a história do oficial de justiça Benjamín (Darín). No presente, ele acaba de se aposentar. Para espantar a preguiça, o sujeito decide escrever um romance. Opta, então, por relembrar um caso intrigante que investigou durante vários anos, duas décadas antes: o estupro e assassinato de uma bela moça (Carla Quevedo). O caso jamais saiu da cabeça de Benjamín, principalmente pela tenacidade demonstrada pelo viúvo da mulher (Ricardo Morales), que jamais deixou de tentar encontrar o principal suspeito do crime (Javier Godino), um ex-colega de infância obcecado pela morta.

Tão logo inicia os escritos, Benjamín se vê de novo envolvido, do ponto de vista emocional, pelo caso, passando então a manter sucessivos encontros com a promotora Irene (Soledad Villamil), antiga chefe dele, que lê o material e o ajuda a relembrar os fatos. Assim, acompanhamos duas cronologias paralelas. No presente, o oficial de justiça usa o romance como pretexto para passar a limpo a própria vida; no passado, ele lidera uma investigação irregular, auxiliado por um assistente alcoólatra (Guillermo Francella) e indo contra a vontade tanto da promotora que o chefia como do juiz responsável pela jurisdição onde trabalha.

A montagem não-cronológica (assinada pelo próprio Campanella, que também co-escreveu o roteiro) é um dos grandes acertos. Alternando passado e presente, o cineasta realiza a exposição descritiva da trama – sobretudo no primeiro ato – através de uma linguagem puramente visual, evitando diálogos desnecessários e abusando das tomadas com lentes longas, que o auxiliam na tarefa de direcionar o olhar do espectador através do uso do foco. No aspecto visual, “O Segredo dos Seus Olhos” contém grande acumulo de acertos, desde a direção de arte correta (observe as pilhas de processos que se acumulam progressivamente nas mesas do escritório de Benjamín) até a fotografia impecável, que inclui um sensacional plano-seqüência de cinco minutos de duração.

O tal plano-seqüência merece um parágrafo só para si, porque é um daqueles momentos que deixam cinéfilos se perguntando como foi possível fazer aquilo. O plano inicia com uma tomada aérea de um estádio de futebol lotado e encerra dentro do gramado, após uma longa passagem pelo meio da torcida e por dentro dos corredores apertados do estádio. Para fazê-lo, foram necessários três meses de preparação coreográfica, outros nove meses de pós-produção e uso extenso de CGI – na verdade, não se trata de um plano-seqüência real, porque há quatro cortes “escondidos” ao longo da cena. De qualquer forma, a cena capta com perfeição a emoção genuína experimentada naquele instante pelo protagonista, de forma que não se trata de uma peripécia técnica feita meramente com o intuito de impressionar.

Até porque Campanella sabe perfeitamente ser discreto e sutil, quando a situação o exige. Pouco antes do plano-seqüência, por exemplo, há uma bela cena em que Benjamín solicita uma reunião de emergência com Irene. Eles discutem sobre um dos casos investigados pela promotoria, mas o subtexto é completamente diferente: a colocação impecável de câmera e o desempenho brilhante da atriz Soledad Villamil (a química dela com o sempre ótimo Darín é excelente) garantem que o espectador capte, entre os diálogos, uma torrente de emoções que não encontra lugar nas palavras. De fato, talvez a maior qualidade de Campanella seja saber exatamente quando e onde pôr energia, deixando a narrativa fluir às vezes aos saltos, às vezes elegantemente lenta.

Além de tudo, as reviravoltas impulsionadas pela investigação/jornada de auto-descoberta de Benjamín nos levam para recônditos surpreendentes, incluindo um segundo ato que alfineta de modo certeiro as tendências ditatoriais de governos argentinos em geral (a alfinetada serve também aos detratores da obra do diretor, que o chamam regularmente de alienado ou americanizado) e depois a um final lindo, sem diálogos, que encerra o filme com uma nota delicada. Para não dizer que “O Segredo dos Seus Olhos” é um filme perfeito, a maquiagem usada para envelhecer os personagens é infelizmente muito mal realizada (defeito acentuado pelo estilo do cineasta, repleto de generosos close-ups), o que deixa as cenas passadas no presente às vezes meio artificiais. Mas é um problema menor para um grande filme.

Informações:

Título Nacional:
O Segredo de Seus Olhos
Título Original:
El Secreto de sus ojos
Ano:
2009
Direção:
Juan José Campanella
Elenco:
Darín, Soledad Villamil, Guillermo Francella, Javier Godino, Ricardo Morales
Duração:
127 minutos
Ligações Externas:
IMDB - Wikipédia - Rotten Tomatoes - Metacritic - Site Oficial

Trailer: